
Devo-lhes muito do que sei sobre o amor,
desse amor silencioso e morno, de paciente olhar,
que nada pede em troca quando é dado.
Vi-os abocanhar nos esconderijos da casa
o ingrato osso da tristeza, quando os dias
foram de solidão e perda e apenas um latido
era capaz de dar a exacta medidade da dor que nos tolhia.
Fui com eles por atalhos e veredas, tantas vezes,
só para buscar no rasto dos pássaros a porta
que levava à liberdade, tão longínqua e tão árdua.
Outra coisa não caçámos que não fosse
a lebre do sonho ziguezagueando entre sombras,
fruto ágil da fantasia dessa idade.
Eu e eles sempre tivemos a mesma idade, diga-se,
que era a de lamber as mãos ao vento
antes que ele, mudando, mudasse a nossa sorte.
E fomos livres, tão livres que não houve trela ou açaimo
capaz de nos impor a pesada lei da servidão.
Quase todos partiram antes de tempo,
traídos por corações que não se rederam ao vagar
que a cadência do tempo recomenda.
Por todos chorei as lágrimas que são devidas
àqueles cuja ausência nos fere e empobrece.
E foram tantas, e foram tantos.
Não me peçam agora que os lembre sem o nó da comoção
a tolher a voz que, trémula, teima em evocá-los,
porque estão presentes quando os quero presentes,
rodopiando atrás da cauda nos pátios de uma memória cintilante.
E se houver, como dizem que há, um Céu dos Cães,
é lá que quero ter assento, a ver a luz a minguar no horizonte,
com a sua palidez de crepúsculo num retrato da infância.
Hei-de então bater à porta e pedir para entrar,
e sei que eles virão, contentes e leves, receber-me
como se o tempo tivesse ficado quieto nos relógios
e houvesse apenas lugar para a ternura,
carícia lenta a afagar o pêlo molhado pela chuva.
Então poderemos voltar a falar de felicidade
e de mim não me importarei que digam:
teve vida de cão, por amor aos cães.